A ilusão da SAPE: a filosofia por trás da extravagância dos “sapeurs”

A ilusão da SAPE: a filosofia  por trás da extravagância dos “sapeurs”

A palavra “sape” nasce da linguagem de rua que significa “vestir-se com classe” e o termo “sapeurs” refere-se em África a alguém que se veste com bastante elegância. Então os “sapeurs” são homens que desfilam nas principais avenidas da República Democrática do Congo Brazzaville e Kinshasa com fatos ocidentais elegantes, acrescentados de um charuto ou do tradicional cachimbo na boca. A sua obsessão fica na sua aparência, a sua elegância e dão primazia a roupas de renomeados costureiros e designers mais do que tudo o resto.

CIGARE

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Embora hoje os mais famosos dândis negros são americanos tal como André 3000, existe movimentos de dandismo negro em outros lugares do mundo e particularmente na República Democrática do Congo, onde desenvolveu-se uma subcultura de gentlemen elegantes que gastam o seu último dinheiro para vestir-se com sofisticação mas também têm uma ética de vida muito estrita. Os “sapeurs” consideram a Alta Costura Europeia uma religião e praticam-na com muito sério. Neste culto existem danças especificas e dez maneiras de andar para cada evento para mostrar de forma óptima o seu estilo, existem também regras e códigos para governar as suas vidas. A regra mais famosa é a das três cores: a um “sapeur” é proibido por mais de três cores ao mesmo tempo.

SAPEUR

Reconhece-se um “sapeur”, não só pelo seu estilo de moda sofisticado e cheio de cores, mas também ao seu comportamento na sociedade, um homem com boas maneiras, defendendo a não violência. Sacrifica muitos elementos importantes a relação à sobrevivência para parecer elegante através de marcas de luxo, para ser visto e reconhecido apesar ter um nível de vida pouco elevado.

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Embora, respeitados e apreciados pelos seus compatriotas, os “sapeurs” são igualmente criticados pela comunidade congolesa porque acha que não são muito conectados com a dura realidade do pais. Assim, este culto de roupa, acima de tudo, parece pouco realista em relação à situação frequentemente precária dos “sapeurs”.

Por um lado, os detratores acusam-nos de fazerem um espetáculo e de gastar muito dinheiro numa sociedade com preocupações materiais e alimentarias. Este sentido de elegância é então mais entendido como prova de vaidade, orgulho, pretensão e extravagância.

PRECARITE

Por outro lado, isso é uma interpretação um pouco superficial da vida dos “sapeurs”. Eles são artistas que usam a moda para criar as suas próprias identidades e fazem-no de uma forma extraordinária. Para se ser considerado um puro “sapeur”, os dândis devem regressar ao Congo-Brazzaville para exibir-se e expor peças de luxo como os sapatos Weston ou fatos da marca Versace ou Gucci, fatos coloridos e acessórios extravagantes. Assim começa uma verdadeira guerra com os concorrentes elegantes. Tudo é exibido: marcas, facturas, mesmo que os “sapeurs” arruínem-se para comprar o seu look. Mas é também verdade que aqueles que não têm a sua disponibilidade um orçamento suficiente, vestem as roupas usadas ou emprestam aos outros “sapeurs” da comunidade.

DANCE

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Esta guerra simbólica de fatos e de palavras, cada “sapeur” deve defender, frente aos outros, o seu look. É uma reivindicação contra os conflitos armados e contra a guerra civil que destruiu o pais nos anos 90. Nesta época, preta da história da República Democrática do Congo, os “sapeurs” organizaram espetáculos na rua para distrair os povos e dar um pouco de alegria porque não havia nenhuma forma de escapar a uma realidade dura e horrível. Alguns “sapeurs” como Jocelyn Le Bachelor, dono da loja “Connivences Boutique”, lar da Sape em Paris, defendem o seu ponto de vista é que o movimento da SAPE contribuiu para a reunificação do pais.

SHOP

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Visto assim, o dandismo e a SAPE parecem menos vazios de sentido. A SAPE não representa só um movimento de congoleses que gostam de exibir um luxo arrogante, não é uma extravagância gratuita. A SAPE representa uma filosofia, uma estética corporal, uma maneira de conceber o mundo e até pode ser considerada como uma reivindicação social por uma juventude sem referências: o corpo torna-se na expressão de uma arte de vida. Uma forma de desenvolver a sua autoestima.

FILOSOFIA

Os “sapeurs” definem a sua filosofia através dos seus costumes e comportamentos. Devem mostrar-se respeitosos e defender a não violência e ser bem-educados. Adoptam este modo de vida através do uso de corres vivas, esta emancipação visual através da roupa para mascarar a realidade difícil do pais. A SAPE não pode ser compreendida só como uma exibição extravagante ou uma expressão de frivolidade porque aquele “sapeur” que consegue impor-se graças ao seu estilo consegue também tornar se no seu próprio mestre.

FILOSOFIA2

A SAPE é realmente uma afirmação da singularidade de cada um, uma forma de amar-se e respeitar-se. O “sapeur” está sempre a procura a sua própria verdade porque há sempre coisas a descobrir. Cada um pode criar a sua história e ao mesmo tempo a do seu pais. Uma maneira de criar uma nova vida longe dos problemas quotidianos.

Muitos congoleses consideram a cultura da SAPE uma arte, uma religião, uma ciência e esse conjunto cria a sua vez, um patrimônio comum que une as diferentes etnias da Republica Democrática do Congo.

RELIGIAO

Segundo Didier Gondola, autor do livro “História do Congo”, “O “sapeur” é sobre masculinidade, política e mudar os estereótipos como a gente vê África.”

A SAPE foi uma maneira de assimilar a cultura deixada pelos colonos e de desenvolver uma identidade própria depois da independência dos países africanos.

Por: Anne-Laure Josserand

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