Anti-Moda: o sistema actual da moda é morte

Anti-Moda: o sistema actual da moda é morte

Desde os anos 80 desenvolve-se um movimento anti-moda, uma reflexão sobre a moda que já não era moda. Uma reflexão sobre o grande negócio da moda, obcecado com o dinheiro e com os aspectos comerciais das marcas, em detrimento da criatividade e da genialidade dos estilistas.

A busca constante pelo novo faz com o que o mercado da moda gera tendências e as torne obsoletas num processo muito acelerado. Em contraponto às tendências de moda que infestam o vestuário desde a indústria de pigmentação e têxtil às passarelas, até chegar às ruas, surge o movimento anti-moda.

Li Eldelkoort, guru da moda há mais de 30 anos, analisou a indústria deste ramo e anunciou em 2015 a morte do sistema actual da moda. Falta agora a autenticidade, a criatividade, o amor pelo trabalho bem pensado, bem feito com tempo e com muita reflexão sobre a sociedade. É verdade que a maioria das marcas pertencem aos grandes grupos de luxos cuja motivação principal é o lucro. Investem nas publicidades que sublinham acessórios e perfumes para gerar benefícios mais e mais importantes.

ANTI'FASHION

A moda na sua definição mais sublime, tem um papel importante na sociedade. Tem o poder de mudar a qualidade de vida, muda a maneira de andar, de namorar, de comportar-se, muda a silhueta e cria outras maneiras de parecer. A moda tem um alto potencial comunicativo: as roupas em si, carregam desde a sua modelagem, informações que caracterizam distinções sociais e acontecimentos de determinadas épocas. Nessas mudanças constantes, a moda cria uma espécie de identidade para cada época, e de um modo geral, acaba por padronizar o modo de vestir da sociedade. A moda prefigura a época, torna-se o espelho da sociedade.

Mas infelizmente, a moda vive uma época de confusão. Por um lado há a explosão da moda rápida e cada vez mais peças de vestuário a consumir, os jovens consumidores percebem que a moda pode deitar-se sem nenhum problema. Por outro lado, as casas de moda de luxo apresentam mais e mais colecções, até oito por ano, e preferem concentrar-se no ramo dos acessórios para apresentar o novo “it-bag” em vez de fazer uma reflexão mais profunda sobre a roupa própria: são colecções só para comunicar e apoiar a venda de acessórios e perfumes.

Mesmo o papel dos estilistas não é bem definido e ensinado nas escolas e institutos de moda. Estes lugares de ensinamento formam futuros vedetas de moda, estilistas de passarelas, muito individualistas. Aprendem só a criar imagens, escolher uma música para a passarela mas infelizmente, nem sabem construir uma silhueta de moda ou reflectir sobre a sociedade. Estes estudantes não conhecem a sua profissão, as diferentes técnicas que uma peça de vestuário precisa para existir primeiro numa passarela e depois numa loja. Ignoram que a moda não é uma questão de individualidade mas mais de um trabalho de equipa, de troca de ideias nesta equipa e de um trabalho conjunto com muitos técnicos que tem um saber-fazer muito especifico.

Não percebem a importância do têxtil, e da importância do desenvolvimento de têxteis inteligentes especialmente indispensáveis na área da ecologia e da protecção do meio ambiente.

Quando analisada a moda, percebe-se  que ela, (a moda) nunca mais protesta. Não protesta contra nada.  A moda segue uma lógica toda de marketing e uma lógica comercial. Os estilistas criam imagens de moda, misturando influências de diferentes épocas e graças a publicidade, aplicações de smartphone, conceitos de lojas e cosmética, as parceiras com marcas de moda rápida, reinam no mercado da moda.

Alguns elementos visiveis surgiram provando que o sistema actual da moda não funciona mais. Primeiro os estilistas Alexander McQueen que suicidou-se em fevereiro de 2010 e John Galliano que fez um “burn-out” mostraram que o sistema da moda tornou-se desumano. Ainda não há tempo para a reflexão e o conceito das colecções. O ritmo tornou-se infernal. Desenvolve-se uma sorte de pressão permanente para criar mais de 8 colecções por ano. Da mesma maneira, o estilista Raf Simons deixou o seu papel de diretor artístico da prestigiosa casa de moda Dior pelas mesmas razoes. Este não se sentia bem porque não conseguia conceituar bem as colecções. O papel de um estilista não é só a desenhar mas propor colecções inteligentes, sublimes, uma reflexão sobre as roupas, propor pontos de vista únicos e originais na harmonia entre a identidade da marca e da personalidade do criador.

RAFSIMONS

Raf Simons no Atelier-Dior

DIOR

Modelagem no atelier Dior: o contrario da moda rápida

No movimento “Anti-Fashion”, a maneira de visualizar o mundo da moda e do luxo é mais empenhada, o criador enceta um diálogo com o seu público para dar sua reflexão sobre o mundo, a política, a arte. Assim os criadores do movimento anti-moda proclamam-se artistas.

Moda e luxo: Arte ou negócio?

O movimento antimoda exprime uma revolta política, social, econômica mas também espera perturbar e ao fim transtornar o sistema da moda e as suas convenções.  Depois da globalização das economias e o desenvolvimento da internet, a moda tornou-se um verdadeiro negócio. Muitos criadores abandonam o seu lado excêntrico para conceber colecções muito comerciais e ganhar partes deste mercado rentável.

A anti-moda une a moda e a arte. Estes estilistas criam colecções como o musico toca música ou como o pintor pinta, para comunicar e deixar manifestar-se emoções. A moda permite expor ideias, defender opiniões e convicções. Assim tem o mesmo papel da arte e especialmente da arte empenhada. Neste caso, o dinheiro tem menos poder que a mensagem que se pretende transmitir ao universo e a filosofia do criador de moda. Tudo como um artista, o criador espalha uma identidade forte da sua marca e o público vem encontrar de uma maneira intima e pessoal uma peça de roupa especial, sensível, uma obra de arte. Assim, o espírito anti-moda espalha-se com cada pessoa que compra estas peças de roupa e também para cada criador que pertence a este movimento.

ANND

Ann Demeulemeester- Outono-Inverno 2017-2018

CDGINTERNA

Comme des garçons

Ainda há na nova geração o movimento anti-moda: faz evoluir este movimento que nasceu nos anos 80 assimilando as influencias contemporâneas e as evoluções políticas, culturais e económicas. Mesmo que o movimento anti-moda se torne numa tendência no futuro ou talvez um movimento que desapareça e reapareça, em função dos contextos políticos e sociais, sempre ficara um movimento artístico, capaz de transtornar o mundo da moda, o conceito da beleza e as aparências dos homens e mulheres. Assim torna-se num elemento muito importante da história da moda.

Por Anne-Laure Josserand

 

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