Jobs da moda: vendedoras de roupa usada

Jobs da moda: vendedoras de roupa usada

Porque as pessoas gostam tanto de comprar roupa usada? Por detrás desta opção há uma lógica de moda: encontrar peças de roupa antiga, que ninguém vai vestir e sentir-se único. É também a forma de seguir tendências ou de criar novas tendências. Seja qual for o motivo, trata-se da arte de se vestir.

Mas também trata-se de pessoas que não têm a possibilidade de comprar roupa nova na loja por falta de condições. Em Maputo, a capital moçambicana encontram-se muitos vendedores de roupa usada. Num pais onde segundo dados estatísticos oficiais apontam para a taxa de pobreza bastante alta e estes empregos precários ajudam as pessoas a sobreviver e a apoiar a sua família.

AMELIA

Amélia Vilankulo, natural da Beira, é casada e tem 4 filhos. Chegou a Maputo há 26 anos. Optou por montar um negócio e a venda de roupa usada foi a escolha porque não conseguiu arranjar emprego formal e optou assim por começar a trabalhar por conta própria, uma forma honesta de ganhar dinheiro e para suprir as necessidades básicas da família na compra do pão e caril e “dar alguma coisa aos seus filhos”.

Neste negócio explica-nos Amélia que, não se escolhe a roupa porque estas vem já embaladas. Só se escolhe os fardos: fardos de camisolas, fardos de calças. Infelizmente não existe a possibilidade de abri-los dentro do armazém apenas quando se chega ao local de venda. Ou seja, não há formas de verificar o conteúdo do fardo no momento em que se realiza a compra. A etapa seguinte consiste na seleção das roupas em condições para serem vendidas e gerar lucro suficiente para comprar outros fardos, cujos preços variam entre os 4 e os 10 mil Meticais. Infelizmente a maioria da roupa num fardo muitas vezes não está em condições de ser vendida por estar estragada. A roupa que não pode ser vendida e o que sobre após a algum tempo é doada a Caritas de Moçambique, uma congregação de igrejas, “para ajudar outras pessoas que não têm nada”.

Amélia está ciente que a roupa usada foi doada pelos povos ocidentais para ajudar as pessoas mais carenciadas em África. Tem também a noção de que não era suposto ter que comprar em armazéns mas a pratica é tão comum que não tem outras alternativa senão comprar e revender alimentando assim o seu pequeno negócio e o sustento da família.

O povo moçambicano gosta muito de comprar roupa usada por causa da qualidade e da exclusividade do vestuário. Qualquer pessoa que compra peças de roupa na loja pode andar 10 metros e encontrar outra pessoa com a mesma peça e, a qualidade também falta. Nunca vai acontecer no caso das roupas usadas.

Por isso mesmo, até agora o negócio de roupa usada não sofre muito com a concorrência de roupa barata importada da Ásia.

JOAQUINA

Joaquina de Sol, natural de Tete, foi durante alguns anos casada na Beira após a separação mudou se para Maputo, a procura de melhores condições de vida. Mãe de 3 filhos, começou a desenvolver o seu pequeno negócio de roupa comprada na vizinha África do Sul e revendia-as em Moçambique até ao dia em que decidiu parar. Era pouco rentável.

E porque o pão começava a faltar a mesa, Joaquina seguiu o conselho da sua prima e enveredou pela venda de roupa usada. No início não foi fácil pois encontrar armazéns certos que vendiam fardos de roupa usada de qualidade foi tarefa difícil. Há 8 anos que desenvolve no passeio, com algum sucesso o seu negócio “sustento os meus filhos com um pouco, pago a renda de casa”.

As condições para encontrar fardos nos armazéns não são sempre fáceis. Joaquina leva por vezes um dia para comprar um fardo com roupa de qualidade. É que as filas são longas e a disputa é grande nestes armazéns identificados como os que melhores fardos vendem. É um ritual que se repete todas as segundas feiras e assim garante Joaquina disponibilidade de roupa para venda toda a semana “as pessoas gostam de comprar roupas comigo mesmo que os preços sejam um pouco mais caros, as roupas são de melhor qualidade. Os moçambicanos são muito sensíveis a qualidade”.

Joaquina trabalha mais com senhoras, aliás alimenta a vaidade deste grupo social mas pensam ampliar o seu negócio e vender roupas usadas também para crianças. “Gostaria de um dia, é o meu sonho, vender roupas para crianças mas é mais difícil porque os fardos são mais caros.”

Os lucros da venda são suficientes para sustentar os seus filhos e pagar a renda de casa. Como mãe solteira, continua sem querer ficar sentada em casa. Ainda assim, apesar do trabalho, dos lucros que o negócio gera e com todos os esforços Joaquina não consegue ter a sua própria casa.

JUDITH

Judith Antônio é uma das clientes mais fiéis de Joaquina e Amélia.  É natural da Beira, chegou a Maputo há 15 anos. Gosta muito de comprar roupas usadas neste lugar por causa da qualidade e por ter a possibilidade de comprar uma peça única e bonita. Segundo esta, as roupas usadas vem de fora de Moçambique, na maioria da Europa e dos Estados Unidos da América o que as torna exclusivas. Ao contrário, não gosta de comprar nas lojas, roupas importadas da Ásia porque” enquanto na loja, é normal sair daqui, chegar ali e ver outra pessoa com a mesma roupa: parece que são gémeas.”

Depois de lavar e engomar, Judith fica satisfeita com o aspecto das roupas porque parecem na verdade compradas fora de Moçambique.

Judith adora moda e por isso prefere a calamidade. É o seu meio de adquirir peças de qualidade, exclusivas e com estilo. Todas as segundas feiras procura junto de Joaquina e Amélia, vendedoras de roupa em segunda mão cujas bancas estão montadas entre as avenidas Amílcar Cabral e Paulo Samuel Kankhomba. Descobrir novos fardos e novidades é a principal motivação.

Por um lado pode vir só para comprar uma única peça. Por outro lado, vem comprar algumas peças para vendê-las na Beira ou para enviar a sua família que reside no centro de Moçambique. As sobrinhas de Judith talvez até pela inocência, acreditam que a roupa é adquirida pela tia nos Estados Unidos da América o que faz desta o orgulho da família pela roupa exclusiva de que veste os membros da família.

Assim ocorre o negócio da roupa usada. Uma pratica muito popular e gostada em Moçambique.

Por Anne-Laure Josserand