Roupas usadas em África: moda de consumido responsável?

Roupas usadas em África: moda de consumido responsável?

Vestir roupas usadas pode ser considerado uma maneira ciente e responsável de consumir? Anualmente em África, toneladas de roupas usadas são enviadas da Europa e dos Estados Unidos para o continente africano. Por um lado, destaca-se o esforço louvável das instituições de caridade para colectarem e enviarem roupas em segunda mão para ajudar os povos africanos vivendo no limiar da pobreza. Ou analisa-se uma maneira de fazer reciclagem e de proteger a natureza através de um consumo muito mais ético e responsável. Por outro lado, a realidade não é tão ideal:  criou um negócio pouco louvável, uma indústria do contrabando.

Há duas teorias sobre o negócio das roupas usadas em África.

Primeiro, muitas pessoas no continente africano não tem acesso à educação, e mesmo depois de um curso universitário, não há sempre a certeza de encontrar um trabalho ao nível certo. A dificuldade de encontrar um trabalho e de apoiar a sua família ou sobreviver, forca a população a encontrar outras maneiras de trabalhar. Então desenvolvem-se estes negócios nas barracas e nas ruas de roupas usadas, permitindo aos vendedores sobreviver e apoiar as suas famílias e dar-lhes rendimentos que mal chegam para cobrirem as suas necessidades. Os recicladores têxteis dizem que o comercio de roupas usadas criou por si milhões de empregos em África. Mesmo o comercio ilegal de roupas prospera no mercado negro e gera também empregos.

ROUPASUSADAS

Assim, este negócio cria empregos e ajuda uma parte da população a não ficar dependente do sistema governativo e sair da pobreza total. Mas também com tantos africanos que ganham um salário abaixo do nível de pobreza, a prioridade é consumir bens ao preço mais acessível.

Ao início, até parece ser uma situação de ganha-ganha, mas a chegada em massa de roupas usadas do ocidente tem um impacto negativo.

Infelizmente, este negócio de contrabando cria organizações falsas recolhem toneladas de roupas, enganando pessoas, que pensam estar a fazer uma boa ação, lucrando milhões de dólares.  Algumas pesquisas apontam que essa indústria crescente ameaça seriamente os mercados têxteis locais já por si fragilizados. A indústria têxtil africana sofre a concorrência impiedosa do negócio de roupa usada mas também de roupa barata importada da Ásia, sobretudo da China. Uma das consequências reside no encerramento de fabricas têxteis africanas provocada exatamente por essa concorrência desleal.

Contudo, as indústrias têxteis representam um sector relativamente fácil de desenvolver e segundo os analistas econômicos, um sector de vestuário em expansão cria muitos empregos e pode levar um pais na direcção da industrialização porque implanta-se facilmente.

Mas a invasão de roupa usada e barata importada destrói o sector têxtil e coloca as fabricas de roupas em dificuldade e sob o risco de encerrar as portas. Enquanto as roupas de segunda mão tornam-se uma indústria muito lucrativa nos mercados africanos, a indústria têxtil e de moda locais estão sofrem diretamente desta concorrência pois limita a produção e evita que o seu sector se desenvolva. É muito difícil disputar o mercado de segunda mão.

Qual são os desafios no futuro?

O sector têxtil precisa de apoio dos diferentes governos africanos e de mais investimentos do sector privado para desenvolver marcas de moda africana.

Para lidar com o problema, alguns países africanos como a África do Sul, a Nigéria e recentemente Ruanda baniram a importação de roupa usada como parte dos esforços para proteger a sua indústria de moda e as marcas africanas. Outros países ainda estão a debater sobre restrições para proteger o mercado da moda africana.

O economista James Shikwati do Quênia, aponta o problema da ajuda vindo do países ocidentais. Segundo este, a ajuda a África prejudica mais do que ajuda. Uma vez mais esta se perante um desequilíbrio entre um negócio que favorece de forma desproporcional as empresas americanas e europeias e por outro lado prejudica o desenvolvimento duma verdadeira indústria de moda em África. Todos os actores do sector são prejudicados: os estilistas, costureiros, varejistas do continente competem com a roupa usada e mais barata.

Falta uma infraestrutura de moda na África. Ainda não há muitas lojas especializadas na moda, prontas a apoiar marcas novas e inovadoras. Por isso, as marcas africanas tem dificuldades para prosperar.

Então, qual e a solução?

Limitar as importações de roupas usadas e das roupas baratas da China mas com um controlo efectivo.

Desenvolver de um produto “Made in Africa” que especifica a qualidade local e apoiada por uma campanha de sensibilização. Isso depende dos governos.

Mas o mais importante é que uma parte da solução reside na promoção do artesanato e da moda local nas diferentes regiões, segundo Elizabeth Cline, autora do livro “Supervestida: o chocante preço alto da moda barata”. O desafio reside na conservação do incrível trabalho dos artesãos e das suas habilidades.

LEMLEM

Liya Kebede com a sua marca LemLem conserva o saber-fazer da Etiópia

Outro desafio para a indústria africana de moda é de perceber as especificidades do mercado africano para atrair mais clientes e deve adaptar-se a sua realidade.

Os desafios são grandes mas já surgiram iniciativas privadas para apoiar a moda africana e os estilistas novos deste sector. África fashion guide organiza conferencias e atelier para ensinar aos estilistas africanos a construir uma marca de moda a partir do continente africano. É um processo demorado mas que vale a pena, considerando todas as oportunidades que este sector vai oferecer. A moda africana desenvolve-se e pode propor uma moda mais responsável, mais respeitosa do ambiente, das tradições e aproveitar o artesanato e as técnicas ancestrais de fazer têxteis tão bonitos e exclusivos.

Por Anne-Laure Josserand

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