Brincando no escuro: análise teatral

Por: Julio Guta, Wilson Correi e Joana Tsope

A Fundação Fernando Leite Couto (FFLC) tem sido palco de muitos eventos culturais (poesia, dança, teatro, lançamento de livros, exposições de quadros e debates), promovendo e divulgando assim cada vez mais a cultura moçambicana. No passado 31 de Agosto do ano em curso, pelas 10h30min, a Fundação Leite Couto acolheu a peça ̏Brincando no Escuro ̋,  uma peça de teatro encenada pela atriz, e  professora de teatro Angelina Chavango, da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e o espetáculo teve a duração de meia hora. A peça foi pela primeira vez apresentada no Centro de Teatro do Oprimido (CTO), no dia 10 de Abril de 2019, pelas 18h, como defesa de culminação do curso de licenciatura em teatro da estudante Celeste Baloi, que contou com a presença em cena de dois estudantes, colegas de turma da mesma, Fernando Macamo e Castigo dos Santos.

Brincado no escuro, conta a história de Wanga (Celeste Baloi), Zequito (Castigo dos Santos) e Paito (Fernando Macamo) três (3) adolescentes que aventuram-se dentro duma casa com brincadeiras fantásticas, mas quando a corrente elétrica da mesma apaga, o ambiente torna-se tenebroso e eles ficam aterrorizados com medo da escuridão. Paito, através de um livro, alerta aos seus amiguinhos a inventarem qualquer brincadeira no escuro, caso não o fizessem, todos poderiam virar bonecas de pano. Angelina Chavango, a encenadora, usou a teoria ou linha dramatúrgica do dramaturgo alemão Bretolt Brecht que é ̏ teatro dentro do teatro ̋, uma teoria usada para ilustrar e explicar uma situação implícita e passa a ser enfatizada.

O trabalho do ator é criar uma carteira de identidade que vai ajudar a construir e a caracterizar a sua personagem, por conseguinte, trabalhar as emoções que vão ajudar a criar uma certa relação entre o próprio ator e a o texto. Todas essas componentes foram trabalhados e executados em cena com perfeição, onde cada ator deu o seu melhor nas suas personagens, mas ainda assim, um e outro aspecto não foram bem trabalhados de modo a criar uma distinção entre a personagem e o ator. A actriz Celeste Baloi, trabalhou muito bem a personagem Wanga, a protagonista da história, inventando um modo diferente de andar, a carteira de identidade bem construída e criou uma relação amigável entre ela quanta atriz para com o texto. A forma de falar, a dicção e a pronúncia funcionou muito bem nesta personagem, conseguiu gerir muito bem as emoções, no que diz respeito a passagem de alegria para tristeza e de tristeza para pânico.

Fernando Macamo interpretou a personagem Paito, um dos amiguinhos da Wanga, a sua forma de falar, a pronúncia e a sua voz em si não funcionou muito bem nesta personagem. Fernando Macamo como ator possui um timbre de voz forte que não enquadrou-se muito bem na personagem, mas em algumas personagens que por ele interpretado nas outras peças como ̏ A espera do Godot ̋ e ̏ Alerquim ̋  a voz encaixava-se muito bem. No entanto, no que diz respeito a carteira de identidade e caracterização física da personagem foram bem trabalhadas, houve uma boa relação entre o Macamo quanto ator e a sua personagem em cena, a leitura das emoções foram bem-feitas concretamente na primeira cena quando Paito junta-se com os seus amiguinhos sorrindo, cantando e dançando.

Ao passo que o Castigo dos Santos que interpretou a personagem de Zequito, soube caracterizar melhor a sua personagem, a carteira de identidade muito bem definida e construída, o trabalho das emoções muito bem gerida, a forma de falar, dicção, pronuncia e a voz em si funcionou e encaixou-se perfeitamente na sua personagem. Castigo dos Santos enquanto ator criou uma forte relação para com a sua personagem Zequito, daí que adaptou um jeito novo de andar e modificou a voz fazendo com que ela se parecesse com a voz de uma criança. Soube gerir muito bem as emoções, criando um certo desníveis em cada momento das cenas.

O figurino é a veste que o ator usa para caracterizar a sua personagem, usa-o para contextualizar a sua classe social e tem bastante influência na representação em função da idade e do sexo. Os atores souberam vestir muito bem as suas personagens, a começar pela Celeste, ela adequou as suas vestes para a sua personagem de acordo com a idade e o sexo. Por tratar-se de uma criança, Celeste usou um figurino muito bem peculiar e um pouco comum, uma cirola cor-de-rosa, um vestido curto também da mesma cor e uma pequena bolsa pendurada ao pescoço. A mesma funcionalidade dos figurinos foi notória para as personagens de Zequito (interpretado por Castigo dos Santos) e Paito (interpretado por Fernando Macamo), ambos vestiram as suas personagens com as mesmas vestes, mudando apenas as cores dos figurinos. Ambos estiveram trajados a sua de um macacão curto de cor azul, uma camiseta preta e uma peúga larga da cor-de-rosa no pé esquerdo.

Correlação ao figurino e texto ambos criaram uma relação amigável, fazendo com que o texto proferido por eles se encaixa-se com as vestes, esteve explícito que estávamos diante de duas crianças.

Todavia, estão de parabéns aos actores que trabalharam arduamente com intuito de representar da melhor forma as suas personagens, com maior enfoque a encenadora que teve um trabalho crucial na montagem e elaboração desta magnifica peça infantil, que na verdade pode ser assistida também por jovens, dai que advirto a todos a verem esta peca de teatro numa outra ocasião.

Esta é uma iniciativa dos estudantes do segundo ano do curso de licenciatura em teatro, da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), da disciplina de análise teatral III.