Estórias de tecidos africanos

Está patente no Cinema Scala em Maputo a exposição, Estórias em tecidos, sob a curadora do artista moçambicano João Roxo. A exposição roteia o percurso histórico e cultural do emblemático tecido capulana em Moçambique e África.

“A Karingana acredita que como africanos podemos contar as nossas estórias e comunicar os nossos valores com base nas nossas vivências e experiências. Não podemos continuar a permitir que ditem e contem as nossas estórias”.

Djamila de Sousa co-fundadora da marca moçambicana de têxtil, Karingana wa Karingana, explica a revista Yanga, o conceito da exposição.

Como é que nasceu a ideia de criar e montar a exposição Estórias em Tecidos?

Foi um convite feito pelo cine-teatro Scala para juntar aquilo que é a história da capulana a um edifício histórico aqui de Maputo e para partilhar um pouco deste património cultural que nós temos. Daí surgiu esta parceira entre a Karingana wa Karingana e o cine-teatro Scala.

Qual é o conceito da exposição Estórias em Tecidos?

O conceito desta exposição é dar a conhecer um pouco mais a história da capulana porque a falar com as pessoas nós trabalhamos com a capulana e estampas no dia-a-dia e percebemos que muitas das pessoas não sabem exactamente da sua história bem como há pouca divulgação. Decidimos que essa poderia ser uma boa oportunidade de vermos aquilo que é a história de como surgiu a capulana, o que é a capulana, como é usada aqui em Moçambique. Também demos aqui um cheirinho de outras partes da África e também começarmos a perceber de onde é que vem a Karingana. A Karingana vem exactamente deste: por existir a Capulana existe a Karingana para dar respostas a um património cultural que começou a fazer parte da vida dos moçambicanos e dos africanos. Começamos a contar o que é também a história da nossa capulana e dos nossos tecidos.

Porque é que é importante manter viva a história dos nossos tecidos?

Primeiro porque já sabemos que a capulana é a nossa bandeira e quase toda a gente em Moçambique pergunta qual é o objecto que identificarias para representar Moçambique ou ser moçambicano, a maioria das pessoas diz logo que é a capulana. Por outro lado, ao longo das nossas pesquisas, vimos que tradicionalmente a maneira dos africanos e moçambicanos de passar o seu legado e a sua história é através de simbologia e através dos artefactos. A capulana passa ser uma destas plataformas para transmitir a história e conhecimento. Então queremos usar esta plataforma para contar as nossas histórias. Porque até agora, a maioria das capulanas vem desenhada de fora de Moçambique ou fora do continente e não fala necessariamente daquilo que é o contexto local. Nós agora queremos começar a propor capulanas que estejam a contar a nossa história. Então, o propósito final, o legado, é mantermos esta tradição da capulana, mas para contar as nossas histórias actuais que vão servir como base para as nossas futuras gerações.

Embora tenha origem na indonésia ou na Índia, será a capulana ou o tecido de cera africano?

É verdade que estes tecidos tem uma origem fora de África. Aqui na exposição, pode ver-se também estes factos e curiosidades, realmente a capulana não é’ originaria de cá mas como disse, essa foi muito bem apropriada pelos moçambicanos e africanos e nós usamos este tecido de uma forma muito própria. Apesar deste tecido ter vindo da Indonésia, da Holanda, da India, agora da China, a maneira de usar é muito particular. A importância, a simbologia que nós agregamos a este pano é muito única. Só por aí já se torna uma coisa nossa. E para ser mesmo nossa, só falta realmente que se transmita os nossos valores culturais.

Qual é o papel da Karingana neste processo?

O processo da Karingana é primeiro, quando estamos a desenvolver uma colecção, uma capulana, nós pensamos ou num tema geral ou então num tema específico que pretendemos desenvolver para uma capulana e, elaboramos a história e ver quais são os elementos que vão melhor transmitir esta mesma história e, passamos para a parte do design na gráfica para a elaboração da capulana. Ao mesmo tempo elaboramos a história. Todas as nossas capulanas têm uma história, tem um porquê de existir. Finalmente vão para a produção. As nossas capulanas aí ainda não são feitas aqui em Moçambique, mas na India porque optamos para oferecer ao público uma qualidade um pouco melhor que infelizmente a fábrica que temos cá não pode oferecer.

Mas a nossa visão mais a longo termo é de poder produzir os tecidos no continente africano porque estamos a trabalhar para trazer de volta a indústria têxtil africana.

Acredita numa indústria têxtil africana?

Exacto. Temos vários processos. A Karingana faz para além das capulanas, que é um processo mais industrial, também fazemos processos mais artesanais: serigrafia, pintura a carimbo, pintura a mão. Estes processos são feitos aqui em Maputo. É esta outra face que gostaríamos de poder oferecer cada vez mais ao publico, esta produção mais local, mais artesanal.

O que é que trouxe a curadoria do artista moçambicano João Roxo?

Nós tivemos o apoio de João Roxo que é um artista moçambicano para montar a exposição e a ideia era mesmo ter uma linha de tempo mais orgânica e cada um que navega no meio deste sítio, se já conhece a capulana, tem algumas coisas, alguns itens que temos aqui antigos que possivelmente as pessoas relacionem com capulanas já vistas com familiares, avos, etc. Temos capulanas de várias origens. São, a grande parte delas compradas em Moçambique, mas aqui já podemos perceber também a linguagem das capulanas inspiradas na Indonésia na India ou na África Ocidental e Oriental. Temos uma representação de cada um destes estilos e temos um bocadinho do que é o nosso trabalho em capulana, mas também em tecidos de interior e de moda. Acho que é uma viagem um pouco nostálgica e as pessoas vão gostar de passar por aqui.

Estórias em Tecidos convida o visitante a uma viagem emocionante na busca da identidade moçambicana e, oferece ao mesmo tempo, uma visão estética e histórica da capulana e da riqueza das tradições têxteis africanas.

Por: Anne-Laure Josserand

Fotografias: Anne-Laure Josserand/Yanga