Tecnologia/IA: Inteligência artificial, a nova ferramenta favorita dos ditadores (mas não só)

Que melhor maneira de ridicularizar os adversários e manipular a opinião do que com deepfakes?

Nunca foi tão fácil manipular as massas como em 2023: é esta a conclusão a que chega, mais uma vez, a ONG Freedom House no seu último relatório. O relatório analisa o facto de os líderes de todo o mundo tenderem cada vez mais a utilizar a inteligência artificial (IA) para fazer as pessoas acreditarem em tudo e mais alguma coisa.

Há muitos exemplos disso, como refere o Gizmodo. Um exemplo disso é a utilização pelo antigo primeiro-ministro paquistanês Imran Khan, atualmente preso, de imagens geradas por uma IA. Graças a essas imagens, ele conseguiu fazer crer que os seus apoiantes tinham sido amordaçados e maltratados pelas forças de segurança. No final de um vídeo publicado no Twitter, vê-se uma mulher vestida de laranja a enfrentar um cordão de polícias. Esta mulher nunca existiu.

O Paquistão é apenas um dos muitos exemplos: segundo a Freedom House, foram utilizados métodos semelhantes em pelo menos dezasseis países (dos setenta observados) durante o ano passado. Mas se a maioria destes países são países em desenvolvimento, principalmente na África subsariana e no Sudeste Asiático, a organização faz questão de sublinhar que os Estados Unidos também fazem parte da lista.

O ex-presidente Donald Trump e o governador da Flórida, Ron DeSantis, usaram deepfakes de áudio e vídeo para colocar obstáculos um no caminho do outro na corrida para a nomeação presidencial republicana.

Como de costume, o clã Trump não se poupou a despesas, chegando mesmo a usar Adolf Hitler e o próprio diabo para gozar com DeSantis, que respondeu na mesma moeda publicando imagens de Trump a abraçar e a beijar Anthony Fauci, antigo conselheiro de Joe Biden para a Covid.

Para além destas utilizações, no mínimo infantis, mas não isentas de efeitos, a IA generativa (ou seja, a capacidade de produzir imagens criadas de raiz) “pode ser utilizada para amplificar a repressão digital e tornar a censura, a vigilância, a criação e a difusão da desinformação mais simples, mais rápidas, mais baratas e mais eficazes”, resume a Freedom House.

A ONG chegou mesmo a enumerar vinte e dois governos que utilizaram a inteligência artificial num quadro legal para retirar das redes sociais certos comentários politicamente desfavoráveis. Este tipo de censura bem gerida permite que certos países mantenham uma imagem positiva, apesar das suas acções: como salienta o relatório, “a utilização da inteligência artificial mascara o papel do Estado na censura”.

O Gizmodo recorda também que países como a Venezuela e a China (bem como o Burkina Faso, acrescenta a Vice) utilizaram estas novas ferramentas para criar vídeos em que comentadores anglófonos evocam a sua visão – obviamente laudatória – do país em causa. Mas também estas pessoas não passam de um conjunto de pixéis gerados por máquinas. No caso da Venezuela, explica a Vice, foi uma empresa chamada ‘Synthesia’ que criou e implementou tudo por uma ninharia.

É cada vez mais difícil saber em que pé se está, tanto mais que, por outro lado, nota a Freedom House, os dirigentes no poder já não hesitam em gritar “deepfake” quando é publicado um vídeo que não os mostra na sua melhor forma – quando não é a própria opinião pública que exprime dúvidas com uma clareza de visão desigual. O exemplo mais recente é a aparição ridícula do antigo Presidente do Gabão, Ali Bongo, que chegou a ser considerada falsa, mas que, na realidade, era perfeitamente autêntica.

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