Medio Oriente: Como os talibãs derrubaram o governo afegão

Quase 20 anos depois de terem sido expulsos de Cabul durante a invasão norte-americana, os talibãs voltaram ontem a entrar na capital do Afeganistão. Os combatentes receberam inicialmente ordens para ficar às portas da cidade enquanto aguardavam uma transferência pacífica do poder, mas ao final do dia, depois de o presidente Ashraf Ghani ter fugido do país, tiveram luz verde para entrar e “garantir a segurança”. Mas quem são os líderes do grupo que fez cair Cabul quase sem oposição?

O actual líder dos talibãs, que foram fundados em 1994 e estiveram no poder entre 1996 e 2001, é Haibatullah Akhundzada, que terá cerca de 60 anos. É a autoridade máxima sobre todos os assuntos políticos, militares e religiosos do grupo. Foi eleito em maio de 2016, dias após a morte do mullah Akhtar Mansour, no ataque com um drone norte-americano na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão.

O líder dos talibãs desde maio de 2016 é Haibatullah Akhundzada.
O líder dos talibãs desde maio de 2016 é Haibatullah Akhundzada.© AFP

O estudioso estava até então focado em questões jurídicas, tendo sido o principal autor das fatwas (decretos ao abrigo da sharia, a lei islâmica) emitidas pelos talibãs. Após ser eleito, desapareceu do mapa, suspeitando-se de que estará em Carachi, no Paquistão. Akhundzada assumiu o controlo dos talibãs numa altura em que estes estavam divididos em lutas pelo poder após a revelação que tinham mantido em segredo a morte do fundador e líder supremo. O mullah Mohammed Omar morreu de tuberculose em abril de 2013, mas isso só veio a público em julho de 2015, tendo Mansour, que era o seu número dois, assumido então a liderança.

Akhundzada conseguiu voltar a unir os talibãs, tendo também a lealdade do líder da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahiri. Este apelidou-o de “emir dos crentes”, permitindo que consolidasse a sua credibilidade entre os jihadistas. Enquanto líder dos talibãs, emite mensagens por ocasião dos dias sagrados do calendário muçulmano. Há menos de um mês, dias antes do Eid al-Adha, disse que “apesar dos avanços e ganhos militares [após o início da retirada militar norte-americana, em maio], o Emirado Islâmico do Afeganistão é vigorosamente a favor de um acordo político”.

Ghani deixou o Afeganistão

Uma das exigências dos talibãs nas negociações em Doha sempre foi a demissão do presidente afegão – visto como uma “marioneta” dos EUA. Algo que ele recusava. Ontem, com os insurgentes às portas de Cabul depois de terem conquistado em apenas dez dias 30 das 34 capitais provinciais do país, Ghani acabaria por deixar o país. Ao seu lado seguiu a primeira-dama, Rula, libanesa de uma família cristã maronita, que ganhou nome na defesa dos direitos das mulheres – que serão especialmente afetadas com o regresso dos talibãs ao poder após 20 anos de maior liberdade.

“O ex-presidente abandonou o Afeganistão, deixando esta situação para o povo”, disse num vídeo Abdullah Abdullah, responsável no governo pelo processo de paz afegão e principal rival de Ghani. Eleito em 2014 e reeleito em 2019 (em ambas as eleições Abdullah também proclamou vitória, tendo sido necessárias negociações entre ambos), o antigo tecnocrata prometia reconstruir o país e pôr um ponto final na corrupção. No currículo, o académico formado nos EUA tinha uma década de experiência no Banco Mundial, tendo voltado ao Afeganistão apenas após a queda dos talibãs e sido ministro das Finanças.

Mas Ghani, de 72 anos, teve dificuldades nessa tarefa, com a sua fraqueza a tornar-se visível ao ter ficado de fora das negociações entre os talibãs e os EUA, que culminaram no acordo da retirada norte-americana. Além disso, foi obrigado a libertar 5 mil prisioneiros talibãs para concluir um acordo de paz que nunca se materializou. Não era ontem claro para onde foi Ghani – Tajiquistão e Usbequistão eram hipóteses – mas numa mensagem no Facebook disse que saiu para evitar um “banho de sangue” diante da “vitória” dos talibãs.

Equipa de negociadores

As negociações no Qatar, que começaram discretamente em 2018 tendo como interlocutores os norte-americanos, contaram do lado dos talibãs com o cofundador do grupo, o mullah Abdul Ghani Baradar. O atual responsável político dos talibãs no Afeganistão era um dos principais comandantes do mullah Omar. Foi detido em 2010, em Carachi, sendo libertado apenas em 2018, por pressão dos EUA.

Da equipa de negociadores fazia ainda parte Sher Mohammad Abbas Stanikzai, chefe político do grupo no Qatar, mas desde setembro de 2020 que ambos respondiam a Abdul Hakim Haqqani, um antigo juiz e atual líder do conselho dos ulemas (religiosos), visto como homem de confiança de Akhundzada.

as as negociações, além do acordo assinado com os EUA para a retirada, não deram frutos em relação a um possível acordo com o governo afegão. Foi a ofensiva militar que acabou por abrir caminho à entrada dos talibãs em Cabul, mesmo que quase sem oposição armada. O responsável pelas operações militares do grupo é o mullah Mohammad Yaqoob, filho mais velho do mullah Omar, muitas vezes apontado como possível sucessor na liderança dos talibãs. Na casa dos 30 anos, foi contudo considerado que não teria experiência suficiente, havendo quem diga que a sua nomeação para o cargo de chefe militar foi simbólica.

A liderança do grupo fica concluída com Sirajuddin Haqqani, que é filho de outro importante talibã (Jalaluddin Haqqani) e responsável pelas questões financeiras. É procurado pelos EUA por causa de vários ataques no Afeganistão, incluindo um atentado em janeiro de 2008 num hotel em Cabul que matou seis pessoas (uma delas norte-americana).

Futuro

Após a conquista de Cabul, os talibãs diziam querer uma “transferência pacífica” do poder “nos próximos dias”. Numa entrevista à BBC, Suhail Shaheen, um dos porta-vozes e negociadores em Doha, disse que o objetivo dos talibãs era ter “um governo islâmico inclusivo”, onde “todos os afegãos” teriam um lugar. Disse ainda que não havia qualquer perigo para os funcionários das embaixadas estrangeiras, que aceleraram ontem a retirada, defendendo que deviam continuar no país. E alegou que não haveria uma “política de vingança”.

Mas isso foi antes de Ghani deixar o país, o que terá levado os combatentes a instalar-se já ontem no palácio presidencial – a partir de onde está previsto que voltem a declarar o Emirado Islâmico do Afeganistão. Ainda assim, estariam ontem a decorrer negociações com representantes do governo afegão em relação a uma “administração de transição”, com rumores de que esta pudesse ser liderada por Ali Ahmad Jalali. Ministro do Interior entre 2003 e 2005, o antigo coronel de 81 anos estaria a caminho de Cabul, tendo nos últimos anos vivido em Washington onde era professor universitário (terá mesmo dupla nacionalidade).

Depois de inicialmente terem ficado às portas da cidade, os talibãs entraram para “garantir a segurança”, com muitas pessoas a tentar fugir. O ex-presidente Hamid Karzai (2001 a 2014) disse num vídeo no Facebook que ficará com a família em Cabul, esperando uma solução “pacífica”.

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